Amanda Aragão emagrecimento -65kg
Foto: Amanda Aragão, 2015.

O meu relato aqui é sobre Compulsão Alimentar, sobre como convivi com isso a minha vida inteira, chegando à obesidade mórbida, e como, tentando me curar e fazendo escolhas erradas, desenvolvi bulimia. E, principalmente, sobre como mesmo depois de emagrecer 65kg continuei infeliz.

Sempre fui gordinha, um bebê rechonchudo, uma criança gordinha, uma adolescente gordinha, etc, etc. A verdadeira obesidade só chegou mesmo no fim da adolescência e piorou com os anos. Até que me vi pesando 136kg. Tenho 1.80 de altura, e uma “boa distribuição” corporal (peito, bunda, pernas, braços, tudo grande), então nunca aparentei ter o meu peso real. Por isso, foi assustador ouvir esses números da endocrinologista que consultei na época. Eu precisava emagrecer.

Já desconfiava que tinha Compulsão Alimentar, mas a confirmação clínica só veio muito depois. Tentando desesperadamente emagrecer, troquei a compulsão pela bulimia. Nunca vomitei (eu tentei -como tentei-, nunca consegui). Mas tomava laxantes todos os dias, religiosamente. Na época, eu não estava estudando nem trabalhando (a confirmação clínica de depressão também só veio muito depois), então tinha bastante tempo livre; me matriculei numa academia que ficava a 30 minutos a pé da minha casa. Tudo planejado. Fazia uma hora de caminhada só indo e voltando da academia. E fazia mais ergométrico quando chegava lá e antes de sair. E musculação. E ginástica. E jump. Eu passava pelo menos de 4 a 5 horas por dia só na academia. E ainda tinha aquela mais uma hora de caminhada. Me levava, propositadamente, a exaustão.

Rapidinho, emagreci muito. Mesmo tendo muitas crises de Compulsão Alimentar durante o processo. Cheguei ao menor peso que me lembro de ter tido na vida até então. Eu contava mais ou menos as calorias de absolutamente tudo que comia, mesmo nos episódios de compulsão, pra poder queimar tudo na academia depois (isso, jogando a quantidade beeem pro alto, pra ter certeza de que ia mesmo eliminar cada uma delas e mais algumas). Tudo muito errado.

Foi nessa época que comecei no meu primeiro emprego. Eu não tinha mais tempo pra academia. Mas tinha pras crises de Compulsão. Aos poucos, voltei a engordar. Me vi com 123kg. Voltei a emagrecer. 113kg. Voltei a engordar. 125kg.

Hoje é claro pra mim como eu engordava mais em momentos de grande estresse emocional e profissional ou conflitos pessoais. E voltava a emagrecer quando as coisas melhoravam um pouco, mas sempre das piores maneiras possíveis.

Depois, comecei a trabalhar em uma grande empresa. A carga horária era pesadíssima e o estresse absurdo, desumano. Juntando isso com problemas pessoais, foi aí que a coisa foi por água abaixo de vez. Sem ter tempo de fazer qualquer outra coisa a não ser trabalhar e dormir, a comida era o meu escape.

Cheguei aos 139kg. Foi quando decidi fazer a cirurgia bariátrica, incentivada por uma amiga que tinha feito um ano antes, já estava magérrima e se sentindo a pessoa mais feliz do mundo. Fui contagiada pela felicidade dela, achei que aquele também era o meu caminho pra felicidade. Spoiler: Não era. Mas eu achava que não tinha escolha, estava convencida (por mim mesma e pelos médicos que consultei pra me informar sobre a cirurgia) de que eu não conseguiria emagrecer sozinha. Que cheguei a um ponto que não tinha volta. Que se não fizesse a cirurgia, eu ia morrer (o médico me disse isso, com essas palavras, olhando nos meus olhos). Tudo mentira. Mas eu não sabia disso ainda.

Só uma verdade naquilo tudo: eu realmente não ia conseguir emagrecer sozinha. Mas aquela também não era a saída. Não pra mim. Não deveria ter sido.

Só que eu havia chegado a um ponto em que não me preocupava nem com o risco de morte durante a cirurgia, porque não queria mais viver me sentindo daquele jeito.

Fiz todos os exames pré-operatórios bem rapidinho. Os resultados? Eu estava completamente saudável. Tudo certo: os exames de sangue, o hemograma completo, vitaminas, exame respiratório, ecocardiogramas, nenhuma gordura nos órgãos internos, endoscopia ok, até mesmo o meu colesterol estava dentro do aceitável. A única coisa abaixo do ideal era a vitamina D, mas isso é comum.

No dia da cirurgia eu pesava 143,4kg e estava completamente saudável.

Eu era completamente saudável.

Isso deveria ter aberto os meus olhos. Isso deveria ter me feito enxergar. Eu poderia, SIM, ter emagrecido do jeito ideal, comendo direito e fazendo atividades físicas. Realmente não ia conseguir emagrecer sozinha, mas eu precisava de um psicólogo, não de um cirurgião.

Passei por um processo agressivo e por um pós-operatório absurdamente difícil (as pessoas costumam dizer que fazer a cirurgia bariátrica é escolher a saída “fácil”, eu posso te dizer que ingerir 50ml de líquido a cada cinco minutos durante 20 dias não é nada fácil).

Um ano depois da cirurgia, foi o exato dia em que atingi o peso que mantenho até hoje: 78kg. São 65kg a menos. Estou dentro do meu “IMC ideal” (e essa medida é um tema para uma outra longa discussão). Estou como sempre quis ser (por fora), sou celebrada e parabenizada por isso. E não sou mais saudável.

Meu corpo não absorve as vitaminas como deveria (mesmo hoje já comendo em quantidades normais), por isso, hoje tenho que tomar OITO tipos de suplementos diferentes. Recentemente, por consequência da cirurgia, desenvolvi uma forte sensibilidade a lacticínios (que não chega a ser intolerância) e não posso mais comer uma das coisas que mais gostava nessa vida: queijos.

Eu não sou mais saudável, mas estou “magra”. E às vezes me parece que é só isso que importa. Ser magra. Assisto ao culto à magreza. Vi colegas de trabalho que não precisavam dessa cirurgia optarem por ela depois de mim, mesmo eu tentando convencê-los de que não precisavam. As pessoas ficam cegas. Como eu estava. A sensação é de estar se afogando e precisar desesperadamente se agarrar em algo. Principalmente se um médico te olha nos olhos e diz que você vai morrer se não emagrecer. Um dos argumentos que o médico usou foi que se não emagrecesse, teria diabetes ou qualquer doença semelhante e tomaria remédios a vida inteira. Que ironia, não?

Quero dar meu depoimento pessoal e me dedicar a esse projeto, porque tenho muito a dizer. E não quero mais deixar isso dentro de mim. As pessoas precisam ouvir alguém dizer “NÃO FAÇA A CIRURGIA BARIÁTRICA AGORA, antes olha isso aqui”, porque quando se está pensando no assunto e pesquisa sobre isso, você só lê maravilhas, como é maravilhoso chegar no seu peso ideal, como é maravilhoso ser magra e fabulosa. Mas na verdade as coisas não são bem assim. Há um certo “endeusamento” da cirurgia bariátrica, como se fosse mágica. E eu gostaria que as pessoas tivessem um ponto de vista diferente, de alguém que já passou por tudo isso. Porque ouvir “não faça isso” de alguém que não te entende, não entende nada pelo que você está passando e tudo que está borbulhando na sua cabeça nessa hora, por mais bem-intencionada que esta pessoa seja, também não serve de nada.

Emagrecer 65kg foi uma grande conquista. Mas a que custo?

Não sou contra a cirurgia, acho que há casos em que ela é realmente necessária. Mas… para a grande maioria das pessoas, ela não é. (Não de maneira iminente.) E eu quero que as pessoas saibam os ônus, que elas tenham informações que você nunca encontra e saiba de coisas nas quais você nunca parou pra pensar, enquanto está pensando em fazer a cirurgia. Não quero dizer pras pessoas não fazerem a cirurgia, mas quero dizer “ei, antes de você pensar em fazer, olha aqui, saiba disso, pensa nisso outro, se questiona essa outra coisa aqui”. Quero dar outra perspectiva, falar sobre a saúde psicológica no pós-cirúrgico, quero dizer que emagrecer não faz ninguém feliz. Eu quero que as pessoas saibam que essa não é a única saída. Eu não posso voltar atrás e desfazer isso, mas posso tentar evitar que outras pessoas façam escolhas que não deveriam ser pra elas.

Você faz a cirurgia no estômago, mas a cabeça continua a mesma. Se você não se tratar, vai continuar insegura, vai continuar se achando horrível, vai continuar evitando espelhos e fotos, vai continuar se escondendo, vai continuar com medo do que as pessoas pensam e falam de você, vai continuar sempre tentando agradar aos outros e esquecendo (ou sem nunca saber) o que TE agrada, o que TE faz feliz. Você não precisa emagrecer só pra obter aceitação. Aceitação vem de você, não dos outros. Ser feliz vem de dentro pra fora, não o contrário. Ser gorda não te torna pior que ninguém, se você quer emagrecer, que seja pelos motivos certos. Qualquer que seja o seu corpo, você não é pior do que ninguém.

Minha cabeça mudou tanto com os exemplos que tenho encontrado de uns anos pra cá, com as coisas que tenho lido, com sites sobre empoderamento, e essas pessoas têm feito TANTO por mim, pelo simples fato de falarem, de escreverem. Eu queria ter encontrado tudo isso antes. Não teria feito a cirurgia. E, se não fosse isso, eu estaria me sentindo da mesma maneira, mesmo com cirurgia, mesmo magra. Foi isso o que me ajudou. Tanto quanto terapia.

A minha mudança não teve nada a ver com emagrecer, mas com me enxergar, me permitir ser feliz, saber que EU MEREÇO ser feliz (porque sempre achei que, por ser gorda, eu não merecia). E saber que me importar com a opinião dos outros sobre mim é uma grande bobagem.

Eu quero fazer isso por alguém também. Porque, como eu disse, a cirurgia é feita no estômago, não na cabeça. Você vai continuar se sentindo do mesmo jeito, porque não é ser gorda que te faz sentir assim. São outros problemas. Tá tudo na cabeça, não no corpo. Eu já tive alguns episódios de tomar laxantes e de compulsão alcoólica mesmo depois da cirurgia. Mesmo estando magra. Este está sendo um processo longo e sofrido. Mas eu não me permito mais ser vencida. Eu decidi que não vou mais me permitir. E eu nunca encontrei ninguém falando sobre isso, ninguém abordando o assunto dessa maneira. Muito menos uma opinião CONTRA a cirurgia de alguém que TENHA FEITO a cirurgia. Eu quero abrir os olhos das pessoas, quero fazer elas se questionarem. Quero que essas coisas sejam disseminadas. Eu quero que a minha escolha errada e o meu exemplo ajudem alguém a fazer a escolha certa.

Agora estou re-al-men-te me reerguendo. Do jeito que deveria ter sido desde o início: de dentro pra fora, não achando que mudando o que tava “errado” do lado de fora, eu estaria me “consertando” por dentro (como eu estava enganada, cara).

Eu queria poder chegar pra Amanda daquela época e dizer “não tem nada de errado com você, o mundo é que tá cagado”; como eu queria ter coragem de me abrir assim, de dizer pra esse monte de meninas e mulheres, esses garotos, que “não tem nada de errado com você, o mundo é que tá cagado, você não precisa ser outra pessoa pra ser feliz, porque se você for outra pessoa, se você não for você, você nunca vai ser feliz”.

Eu venci. Venci, não porque estou curada (não estou), mas por não mais me deixar ser vencida. E finalmente tô aqui, tendo uma perspectiva muito melhor da vida, de mim, finalmente entendendo como as coisas devem ser, aprendendo a conviver com uma saúde que tá f*dida e vai estar f*dida pra sempre, depois de muitas escolhas erradas, mas finalmente fazendo as escolhas certas.

E eu penso todos os dias no quanto eu queria me juntar a essas vozes que tem me ajudado a levantar a minha cabeça e poder ajudar e dizer pra outras pessoas que as coisas não precisam ser assim, que elas não tem que passar pelo que enfrentei a vida inteira. Mas não me permitia fazer isso.

Este tem sido um longo e sofrido processo de aceitação, ainda em progresso. Ainda luto contra a imagem que tenho de mim mesma, contra a depressão e contra um transtorno de ansiedade paralisador. Porque não importa que o seu exterior mude, por dentro você ainda é a mesma pessoa. E o que as pessoas, cegas pela doença (e as que estão do lado de fora vendo você mudar – no meu caso, emagrecendo e sendo aplaudida por isso), não enxergam é que pode estar tudo “ok” por fora, mas por dentro pode ter um estrago absurdo tomando conta de você. O meu estrago interior, mental e psicológico, foi devastador. Então, eu ainda luto contra isso todos os dias. Pra me aceitar, pra ser eu. Pra mandar toda essa p*rra pra p*taqueopariu. Pra ser feliz.

Outras pessoas me ajudaram a enxergar que EU POSSO falar sobre isso, eu DEVO falar sobre isso. Me lembro do quanto foi e é importante pra mim (e tenho certeza que pra muitas outras pessoas também) o simples fato de se mencionar, de se tocar no assunto. De como outras pessoas também falarem sobre isso tem me ajudado a seguir em frente e – no passado – a saber que, mesmo que eu não conseguisse enxergar essa luz dentro de mim, ela existia.

Pra mim, é muito difícil falar sobre isso. Porque nunca falei sobre meu processo de emagrecimento publicamente. Nunca comemorei. A primeira vez que disse (pra outras pessoas e pra mim mesma) que emagrecer foi uma conquista foi num post no Precisamos Falar. Mesmo quando estava ainda emagrecendo, nunca vi isso como uma conquista, porque era simplesmente como se emagrecer não fosse mais que minha obrigação. Também há muito preconceito com quem faz a cirurgia, como se fosse uma saída fácil (e não é, juro que não) e acho que meio que eu me via como uma fracassada, por não ter conseguido sem ela. É a primeira vez que me permito ver isso como uma conquista e não como um simples erro ou uma falha. Mas isso é um outro assunto.

O meu ponto principal aqui é que o fato de emagrecer desse jeito (aliado a outras coisas), na verdade, só aumentou a depressão e o transtorno de ansiedade em níveis astronômicos. E piorou demais o jeito como eu já me sentia antes da cirurgia.

Eu tinha compulsão e bulimia. Depois de emagrecer, eu simplesmente não posso ter compulsões. Se eu tiver uma compulsão como tinha antes, vou arrebentar meu estômago. Cabe muito pouco aqui (são só 4cm). Então, a comida, forçadamente, deixou de ser um escape. Ainda assim, tive muitas crises de bulimia depois da cirurgia, mesmo comendo pouco (porque, durante um tempo, fiquei com pavor de engordar de novo, mesmo que fosse 1kg). Por pura sorte, eu não troquei minha compulsão por outra (como álcool, por exemplo, o que é MUITO comum de acontecer).

Eu não tenho mais um escape. Eu não tenho mais o que fazer pra me dar o mínimo de prazer quando eu tô me sentindo no fundo do poço. Somos só eu e aquele sentimento (e muito chocolate de vez em quando). E é difícil demais. Na verdade, eu acabei trocando a compulsão por simplesmente não comer mais. Às vezes, nas minhas piores crises de depressão depois da cirurgia, passei dias sem comer e já nem é mais para emagrecer ou com medo de engordar, é só porque eu simplesmente não tinha vontade.

Por isso, eu digo que não precisava de uma cirurgia, mas de um psicólogo. A cirurgia é no estômago, não na cabeça. Com a cirurgia, eu acabei apenas mudando o foco do meu problema e piorando. Meu problema não estava no meu estômago, mas na minha cabeça.

Por que mexer num órgão quando é outro que está doente? De que maneira isso faz sentido?

Além disso tudo, é como se hoje eu vivesse me apoiando em uma muleta, porque são milhares de restrições que apareceram depois da cirurgia e eu nem cheguei a mencionar aqui (não somente alimentares), além de todos os suplementos. Eu me sinto presa. E vou viver assim pra sempre. Então, é essa a vida saudável, feliz e maravilhosa que me prometeram?

A mim, só resta aprender a viver com as consequências das minhas escolhas. Mas quero muito, muito mesmo falar e contar a minha história, para que quem ainda não fez uma escolha como essa ao menos se questione se realmente vale a pena.

E decidi que VOU falar sobre isso. Porque realmente cansei de viver no escuro.

Se eu também conseguir inspirar alguém a fazer qualquer movimento pra deixar de viver sob a sombra de si, então já vai ter valido a pena.

No fim das contas, quem se importa com você, se importa; quem não se importa, nunca vai se importar. E a pessoa que você é nada tem a ver com seu corpo.

A vida nos fez pra ser feliz. :)

E só o que importa importa.



Texto revisado pela última vez em 31 de agosto de 2019.